Não entendo de cinema.
Não entendo de Lars von Trier.
Não entendo de artes.
Não entendo de literatura.
Não entendo de psicologia.
Não entendo de cristianismo.
Não, não entendo muito dessas coisas.
Não, não entendo nada dessas coisas.
Eu entendo de dor.
Eu entendo o anticristo.
Mais do que na natureza, o anticristo está na humanidade.
Cada ser humano é um anticristo em potencial.
Entendo de culpa, entendo de raiva, entendo de frustração, entendo de insegurança, entendo de projeção, entendo de fuga, entendo de loucura, entendo de desequilíbrio, entendo de agressividade, entendo de medo. Entendo muito de medo. Disso tudo entendo muito bem. Não me importo mais com a minha crítica inculta, sem base intelectual. Não que a tenha abolido, acho interessante até. Para o momento, contudo, não é muito, tanto é que li muita besteira acerca do filme. Claro, são opiniões.
O que vejo é o óbvio se perdendo numa complexidade criada e percebi o quanto esse filme coloca a crítica numa contradição gigante (é preciso esforço para não conferir valor negativo à contradição). Penso isso porque o filme fala de fuga em um nível extremo e porque sinto que ele se dirige a cada um dos que assiste. Nesse sentido o considero genial. E também agressivo, não tem como negar. Mas talvez meu motivo para tal seja bastante peculiar: acredito que sua agressividade menor esteja nas imagens pesadas por si só, a maior agressividade é a que está no meu eu, na maneira em que ele é colocado em cheque por esse retrato muito fiel do ser humano. Me incomodou, me deu vontade de vomitar, me deu gastrite, me deu aflição profunda. E tudo isso porque eu me identifiquei. Engraçado, não senti tristeza nem medo das coisas depois. Senti medo de mim mesma. Senti muito medo de mim mesma depois do filme. Foi o único filme que me deu isso. Alguns me deram medo de criaturas do além, outros de serial killers, outros mais sensíveis me deram medo da vida, outros do acaso, etc. Mas esse foi o único que me deu medo de mim.
Hoje acordei e senti uma paz sem tamanho. Saber ver o anticristo em mim está me dando paz real. Não sei se me entenderiam. Mas parece que eu entendo as pessoas no geral, mesmo que elas tenham mil e um segredos. Não vem ao caso. Estou muito empolgada com esse filme! Ontem eu descobri que Lars von Trier tem O Anticristo em seu criado-mudo desde os 12 anos de idade. Eu não li ainda, nunca li Nietszche, nunca tive muita vontade, tinha muita preguiça de filosofia difícil e medo de ficar maluca uma vez que sou um ser bastante influenciável. Tô um pouco curiosa. Mas tenho uma ligeira suspeita de que o filme será muito mais (des)construtivo para mim, ou seja, me acrescentará mais. É que eu estou surpresa como algo pode ser tão incrivelmente direto, óbvio, pessoal e também direcionado. De qualquer maneira, é uma suspeita apenas.
Eu nunca vi nada chegar em um nível tão profundo sobre comportamento humano. Não me lembro pelo menos. Eu vi uns filmes lindos que me acrescentaram de fato para a vida, que me esclareceram muitos pensamentos. Mas parece que nada chega aos pés. Não é que O Anticristo seja meu favorito, nem sei se tenho um. E, sinceramente, não sei se um filme que me dá vontade de vomitar seria meu preferido, acho que me desprendi um pouco do masoquismo ao longo do tempo. Sadismo e masoquismo caminham juntos necessariamente em O Anticristo.
Percebo muito nítida a separação de cristianismo e da figura de cristo. Cristo é um alien dentro do cristianismo. Eu nunca fui muito de estudar Cristianismo, tentei fugir dele boa parte da minha vida. Começou com a revolta. Tudo era culpa, tudo era dor. E me diziam para dar a outra face. Aí virou revolta. Eu quis machucar, quis dar o troco. E isso durou a minha adolescência inteira. Quis me machucar pra conseguir ter mais vontade de machucar o outro, seja pela culpa provável que este outro pode sentir, seja pela minha agressividade. E isso é muito, muito humano. Eu via o anticristo em todas as minhas relações enquanto assistia ao filme. Eu via o anticristo nas pessoas que conheço, em todas que lembrei. Isso porque Cristo, o que é cristo? Digo, a figura de cristo. Ela é nada mais do que a representação do humano sublime: aquele que recebe a dor, mas não retruca. O que ele faz com tanta dor? Ele absorve? Ele ignora? Não sei, não sei. Sei que ele é aquele que consegue tudo o que a gente não consegue. A figura que criamos de Cristo o transforma em um herói inventado. Aquele que é capaz de fazer coisas que não fazemos. E os motivos para não fazer são muitos e muito pessoais. Mas uma coisa é fato. Ignoramos o medo e a dor achando que, dessa maneira, não os sentiremos. Ledo engano.
A personagem masculina (óbvio) o tempo inteiro reforça essa idéia. Ele tenta fazer sua mulher sentir a dor, sentir o medo, desafiá-los de modo que possa superá-los. Ele não enxerga os limites desse processo. Mas, pior do que isso, enquanto ele tenta com desespero contido em razão, ele foge de si. Tenta consertar nela o que está quebrado nele. Não funciona. Luto, dor e desespero: os três mendigos estão em todos, mas se expressam de maneira diferente, até porque se trata de um homem e de uma mulher, o que torna mais complexa essa projeção. Não dá pra negar a importância do masculino e do feminino no filme (atenção, feminino e masculino, não homem e mulher). A essência de cada aspecto transparecem de maneira diferente nos três mendigos. E talvez isso seja o precipício que foi capaz de levar o conflito aos níveis mais exageradamente humanos e "insuportáveis". A questão do feminicídio não está no filme à toa... Lars dá muita dica nos detalhes repetidos. Tal questão me lembra a obcessão da personagem pela figura do feminino, de modo a fugir dele tentando agir de uma maneira que remete ao modo de fugir mais masculino - razão (lembrem-se, a tese dela é sobre o feminino). Após a ruptura (morte do filho), dor, culpa e desespero. Razão? Não dá mais para fugir por aí. Sabe, não é por acaso que o sexo é tão forte e constante no filme. O próprio diretor, ao dizer que se utilizava da ficção para pôr seus demônios pra fora, se comporta um pouco parecido com a personagem do terapeuta e com a mulher obcecada pelo feminicídio, o que é um achismo da minha parte. Acontece que este filme está além da ficção.
Anticristo não é um filme para espectadores.
Por ora, me cansei de escrever. Mas ainda estou bastante empolgada. Minha obcessão chula por Barroco com certeza vai se refletir em breve fazendo paralelos com O Anticristo, tenho certeza. A começar pela trilha sonora, que é tão simbólica quanto a fotografia, quanto os diálogos. Händel é uma boa pista também que Lars esfrega na nossa cara. Mas a crítica inteligente é burra. E aposto que entendem mais de Música do que eu.
Andam dizendo por aí que Lars passou dos limites. Talvez nós é que costumamos forjar demais os nossos.
