29 de outubro de 2009

O Anticristo - devaneios

Não entendo de cinema.
Não entendo de Lars von Trier.
Não entendo de artes.
Não entendo de literatura.
Não entendo de psicologia.
Não entendo de cristianismo.
Não, não entendo muito dessas coisas.
Não, não entendo nada dessas coisas.

Eu entendo de dor.
Eu entendo o anticristo.
Mais do que na natureza, o anticristo está na humanidade.
Cada ser humano é um anticristo em potencial.
Entendo de culpa, entendo de raiva, entendo de frustração, entendo de insegurança, entendo de projeção, entendo de fuga, entendo de loucura, entendo de desequilíbrio, entendo de agressividade, entendo de medo. Entendo muito de medo. Disso tudo entendo muito bem. Não me importo mais com a minha crítica inculta, sem base intelectual. Não que a tenha abolido, acho interessante até. Para o momento, contudo, não é muito, tanto é que li muita besteira acerca do filme. Claro, são opiniões.
O que vejo é o óbvio se perdendo numa complexidade criada e percebi o quanto esse filme coloca a crítica numa contradição gigante (é preciso esforço para não conferir valor negativo à contradição). Penso isso porque o filme fala de fuga em um nível extremo e porque sinto que ele se dirige a cada um dos que assiste. Nesse sentido o considero genial. E também agressivo, não tem como negar. Mas talvez meu motivo para tal seja bastante peculiar: acredito que sua agressividade menor esteja nas imagens pesadas por si só, a maior agressividade é a que está no meu eu, na maneira em que ele é colocado em cheque por esse retrato muito fiel do ser humano. Me incomodou, me deu vontade de vomitar, me deu gastrite, me deu aflição profunda. E tudo isso porque eu me identifiquei. Engraçado, não senti tristeza nem medo das coisas depois. Senti medo de mim mesma. Senti muito medo de mim mesma depois do filme. Foi o único filme que me deu isso. Alguns me deram medo de criaturas do além, outros de serial killers, outros mais sensíveis me deram medo da vida, outros do acaso, etc. Mas esse foi o único que me deu medo de mim.

Hoje acordei e senti uma paz sem tamanho. Saber ver o anticristo em mim está me dando paz real. Não sei se me entenderiam. Mas parece que eu entendo as pessoas no geral, mesmo que elas tenham mil e um segredos. Não vem ao caso. Estou muito empolgada com esse filme! Ontem eu descobri que Lars von Trier tem O Anticristo em seu criado-mudo desde os 12 anos de idade. Eu não li ainda, nunca li Nietszche, nunca tive muita vontade, tinha muita preguiça de filosofia difícil e medo de ficar maluca uma vez que sou um ser bastante influenciável. Tô um pouco curiosa. Mas tenho uma ligeira suspeita de que o filme será muito mais (des)construtivo para mim, ou seja, me acrescentará mais. É que eu estou surpresa como algo pode ser tão incrivelmente direto, óbvio, pessoal e também direcionado. De qualquer maneira, é uma suspeita apenas.

Eu nunca vi nada chegar em um nível tão profundo sobre comportamento humano. Não me lembro pelo menos. Eu vi uns filmes lindos que me acrescentaram de fato para a vida, que me esclareceram muitos pensamentos. Mas parece que nada chega aos pés. Não é que O Anticristo seja meu favorito, nem sei se tenho um. E, sinceramente, não sei se um filme que me dá vontade de vomitar seria meu preferido, acho que me desprendi um pouco do masoquismo ao longo do tempo. Sadismo e masoquismo caminham juntos necessariamente em O Anticristo.

Percebo muito nítida a separação de cristianismo e da figura de cristo. Cristo é um alien dentro do cristianismo. Eu nunca fui muito de estudar Cristianismo, tentei fugir dele boa parte da minha vida. Começou com a revolta. Tudo era culpa, tudo era dor. E me diziam para dar a outra face. Aí virou revolta. Eu quis machucar, quis dar o troco. E isso durou a minha adolescência inteira. Quis me machucar pra conseguir ter mais vontade de machucar o outro, seja pela culpa provável que este outro pode sentir, seja pela minha agressividade. E isso é muito, muito humano. Eu via o anticristo em todas as minhas relações enquanto assistia ao filme. Eu via o anticristo nas pessoas que conheço, em todas que lembrei. Isso porque Cristo, o que é cristo? Digo, a figura de cristo. Ela é nada mais do que a representação do humano sublime: aquele que recebe a dor, mas não retruca. O que ele faz com tanta dor? Ele absorve? Ele ignora? Não sei, não sei. Sei que ele é aquele que consegue tudo o que a gente não consegue. A figura que criamos de Cristo o transforma em um herói inventado. Aquele que é capaz de fazer coisas que não fazemos. E os motivos para não fazer são muitos e muito pessoais. Mas uma coisa é fato. Ignoramos o medo e a dor achando que, dessa maneira, não os sentiremos. Ledo engano.
A personagem masculina (óbvio) o tempo inteiro reforça essa idéia. Ele tenta fazer sua mulher sentir a dor, sentir o medo, desafiá-los de modo que possa superá-los. Ele não enxerga os limites desse processo. Mas, pior do que isso, enquanto ele tenta com desespero contido em razão, ele foge de si. Tenta consertar nela o que está quebrado nele. Não funciona. Luto, dor e desespero: os três mendigos estão em todos, mas se expressam de maneira diferente, até porque se trata de um homem e de uma mulher, o que torna mais complexa essa projeção. Não dá pra negar a importância do masculino e do feminino no filme (atenção, feminino e masculino, não homem e mulher). A essência de cada aspecto transparecem de maneira diferente nos três mendigos. E talvez isso seja o precipício que foi capaz de levar o conflito aos níveis mais exageradamente humanos e "insuportáveis". A questão do feminicídio não está no filme à toa... Lars dá muita dica nos detalhes repetidos. Tal questão me lembra a obcessão da personagem pela figura do feminino, de modo a fugir dele tentando agir de uma maneira que remete ao modo de fugir mais masculino - razão (lembrem-se, a tese dela é sobre o feminino). Após a ruptura (morte do filho), dor, culpa e desespero. Razão? Não dá mais para fugir por aí. Sabe, não é por acaso que o sexo é tão forte e constante no filme. O próprio diretor, ao dizer que se utilizava da ficção para pôr seus demônios pra fora, se comporta um pouco parecido com a personagem do terapeuta e com a mulher obcecada pelo feminicídio, o que é um achismo da minha parte. Acontece que este filme está além da ficção.

Anticristo não é um filme para espectadores.

Por ora, me cansei de escrever. Mas ainda estou bastante empolgada. Minha obcessão chula por Barroco com certeza vai se refletir em breve fazendo paralelos com O Anticristo, tenho certeza. A começar pela trilha sonora, que é tão simbólica quanto a fotografia, quanto os diálogos. Händel é uma boa pista também que Lars esfrega na nossa cara. Mas a crítica inteligente é burra. E aposto que entendem mais de Música do que eu.

Andam dizendo por aí que Lars passou dos limites. Talvez nós é que costumamos forjar demais os nossos.

28 de outubro de 2009

Barroco e Fenomenologia

Sujeito e objeto.
Claro e escuro.
Essência e consciência.

A eterna frustração ao separar.
A eterna diversão ao inventar.

E o ocidente prova mais uma vez que não superou o Barroco, embora o Barroco nunca tenha existido. Nomes, nomes.


obs.: esse texto é altamente subjetivo. E o que não é? (curiosidade)
Acasos

Os acasos mais gostosos.
As raízes mais saborosas.
Os reencontros mais inesperados.
As descobertas mais leves.
Os dias mais ensolarados.
As comidinhas mais simples e quentinhas.
Os interesses mais puros e sinceros.
As vozes mais doces e confortáveis.

Saber que existem mil caminhos, lembrando sempre - e sem esforço - que só se segue um e que ele parece tão certo é tão gostoso. Sentir grandeza na pequenisse, sentir parte de algo maior na solitude (e não solidão), sentir que tudo foi como tinha de ser, ah, isso tudo me faz feliz. Se são meras coincidências ou se são surpresas misteriosas da existência já não importa mais tanto. Sentir tudo entrando nos eixos é gratificante.
Tempo: sobre a esperança

Esperar: esperança.
Ultrapassa sem pressa o que costuma se chamar de tempo, que nada mais é que nada.
Nada em sua abstração que me é tão presente.

Talvez não haja mais espera e talvez isso não seja angustiante, como sempre acreditei, imaginei, pensei e senti. É uma questão de tempo transcender o próprio tempo.
Deus

Fala comigo.
Fabiana Anjos

Seu sobrenome diz muito de ti.
Klara Lisce Hektor

Uma grande mulher.

27 de outubro de 2009

Cecília

Sim, nós aprendemos toda santa vez. Nos espatifamos para voltarmos sempre inteiras. Quantas vezes vamos nos deixar cortar já não me interessa, não posso evitar.
A integridade pode ser a única coisa que me resta, mas me conforta saber que ninguém é capaz de tirá-la. Dessa maneira, encontro paz e sigo em frente, mesmo numa tristeza que parece não ter fim.

26 de outubro de 2009

Bruna Raquel La Serra e Vladimir Maiakóvski em um acerto de contas

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.


Maiakóvski me traz lembranças doces, mas, Bruna, você me traz melhores.
O remador II

Lembro-me de tê-lo visto também à noite
Já não dava pra ver muita coisa
O rio refletia alguma luz parca,
fraca em seu ser,
líquida em seu balanço

Ele se aproximou do píer,
trocou algumas palavras
com o homem duro
que cuidava dos barcos

Lembro-me de que não tive
nenhum ímpeto de poesia.
Avô

Uma vida completa.

20 de outubro de 2009

Para meu amado

Andou chovendo muito por aqui. Vim passar uns dias em Balneário Camboriú com o objetivo de fazer trilhas, nadar muito, tomar sol etc. Ia até aprendar a surfar! Deve ser melhor que andar (mal) de skate. Bom, pelo menos, não acumularia mais ralados e roxos pra minha coleção... Choveu muito, dias muito nublados, mas pensei bastante, me alonguei bastante, observei bastante o rio, o mar, a chuva, os barquinhos, os pássaros e o remador. Conversei bastante com o silêncio, foi bom. Diria que foi crucial pra minha cabeça. Ontem até estava sentada no píer, com os pés no rio, e vi um pássaro na água comendo um peixinho. Então, veio outro pássaro voando e mergulhou atrás do outro, provavelmente para roubar seu alimento, e mordeu bem a bunda do seu semelhante!!! O que me surpreendeu é que soltei uma baita duma gargalhada, dessas que a gente até assusta quando ri, não porque foi escandalosa demais (a isso meu jeito bichona já me acostumou...), mas porque não esperava rir de uma coisa tão, tão boba.
Hoje eu acordei bem cedo, queria ir fazer umas fotos na marina, do rio, do mangue, do píer... Porém, o sol saiu! Estou com passagem comprada pra hoje à noite e, me surpreendi mais uma vez: não estou chateada porque o sol saiu no último dia! Eu pude ver chuva e sol e isso tá mais do que bom! Fico feliz de ter sabido aproveitar os dias cinzas, eles não foram tão cinzas. Se fosse escolher uma cor para eles, diria que eles foram verdes, seilá porquê. Enfim, não vem ao caso. Hoje pretendo andar e escalar até a praia da solidão, que é um lugar maravilhosamente calmo, limpo, brilhante! Mudança de planos! É, acaso, eu disse que agora era minha vez de te pegar!
E a parte que me fez dar o título que dei vai se traduzir nas próximas linhas, mas não com palavras exatamente minhas...


Here comes the sun,
here comes the sun,
and I say it's all right

Little darling,
it's been a long cold lonely winter
Little darling,
it feels like years since it's been here

Here comes the sun,
here comes the sun
and I say
it's all right

Little darling,
the smiles returning to the faces
Little darling,
it seems like years since it's been here

Here comes the sun,
here comes the sun
and I say
it's all right

Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...

Little darling,
I feel that ice is slowly melting
Little darling,
it seems like years since it's been clear

Here comes the sun,
here comes the sun,
and I say
it's all right
It's all right


Agora, as minhas: eu te amo.

18 de outubro de 2009

O rio corre

Vejo de novo o remador
Agora, rema de costas
para seu destino
Seus braços movem-se com mais força
Parece ter pressa
Mas seu rosto está despreocupado
A neblina já se foi nesse fim de tarde
Ficaram apenas algumas garças
Repousam como estátuas sobre os galhos
que escapam ao emaranhado do mangue

O remador já anda longe
O rio corre sempre.

17 de outubro de 2009

O remador

Voa, remador
Atravessa com teu remo
a neblina que páira sobre o rio
o silêncio que acoberta o mangue
Voa pra longe,
sereno em teu barco.
Nunca antes havia imaginado Caeiro em minha vida.

15 de outubro de 2009

Não está nos livros, nos filmes, na História.
Não está nas pessoas, suas falas, seus gestos.
Não está nos animais, nas rochas, no vento.
Não está em lugar nenhum.

Está em qualquer lugar, em qualquer coisa.
Respirar é bom. E bondade não se busca, se vive.

14 de outubro de 2009

Vou-me embora pra Pasárgada. Você sabe onde fica?
Eu sei, mas não posso contar.
Não por mesquinharia ou por egoísmo, mas porque não é de se contar!
É de se sentir, de se ir!
E só se pode dizer algo a respeito de lá:
não é tão longe quanto parece!

11 de outubro de 2009

06:02h. Estou acordada há mais de duas horas, só pensando, pensando. Eu fico muito mais ativa pela manhã. Ver o Sol nascer, fraquinho, um gigante sem força alguma. E vai subindo no céu, rasgando um infinito azul indefinido. É mais ou menos como eu acordo, lenta, aos poucos vou pensando nas coisas, com calma. Preguiçosamente vou voltando ao meu corpo. Sinto o ar preencher cada centímetro, para depois sair, momento que eu não percebo muito bem, mas que transmite uma paz, um relaxamento bom. Nos últimos anos, eu mal estava acordando com despertador. Muitas vezes, ele tocava durante 1h, de 5 em 5 minutos. E que tristeza que me dava, não tinha vontade de fazer coisas, de cumprir tarefas. Esse momento de ócio que estou tendo após trancar a faculdade é crucial na minha vida, talvez muito mais essencial e básico ao mesmo tempo do que outros métodos que venho experimentando, como terapia, uso de remédio psicotrópico (em relação aos quais sempre me posicionei contra, uma vez que não acredito na cura como sendo unicamente o tratamento dos sintomas), etc. Não importa que linha vamos seguir no tratamento daquilo que não nos faz bem, descobri que o mais importante é ter calma. Parar para pensar, respirar. É se propor a ir atrás de si mesmo. Onde foi que enfiei meu eu? Onde foi que o escondi? E por que eu o fiz?
Eu gosto de escrever com a leveza de ser sincera comigo mesma, de não querer parecer. Ser simplesmente. As coisas no silêncio ficam mais claras para mim, os pequenos detalhes da manhã. Sinto o meu corpo, essa morada passageira da minha alma, entrando em contato com o Universo, com o mundo, não esse mundo descompassado que eu estou acostumada a ver, a perceber. O mundo formado por cada ser, animado ou não. Não esse mundo determinado por seres que estão confusos, que, muitas vezes, acabam por agir num sentido que não engloba nem ele mesmo, em um sentido que só cabe o seu ego. Minha postura agora não tem sido simplesmente ignorar meu eu. Meu eu é tão importante quanto o resto do mundo, afinal é ele quem me faz percebê-lo. Por isso, tentei buscar uma nova maneira de olhar para dentro de mim, evitando, por um lado, anular meu indivíduo e, por outro, agir em função do meu ego. Essa terceira opção não é exatamente um ponto entre as duas outras. Ela é uma soma das duas, no sentido de que acho fundamental me reconhecer como indivíduo, único e gigante na minha pequenez. Além disso, não agir em função do ego não significa desprezá-lo, ignorá-lo. Acho indispensável nesse meu processo observar o que meu ego pede, a maneira como ele deseja que eu aja. E, a partir disso, tentar compreender o meu eu e as falhas de comunicação entre ele (percepção e conhecimento) e aquele eu que existe para o mundo (ações). Eu não sei exatamente qual o sentido que se atribui normalmente a indivíduo e a ego enquanto conceitos, mas o que eu quis dizer quando falei de ego, é que o entendo como uma relação entre o nosso ser e o que está externo a ele. É nesse sentido que o entendo como um importante intermediário e está sendo para mim bastante enriquecedor percebê-lo como caminho, como intermédio dessa relação. Por isso acredito que não devo, de modo algum, esquecê-lo por enquanto, mas prestar atenção ao que ele tem para me dizer, no que ele pode apontar. O caminho me parece bastante longo, mas sinto que o grande barato da vida é não deixar de segui-lo.