24 de julho de 2010

A espera

Esperar é a pior coisa que se pode fazer.
Esperar significa paralisar tudo aquilo que se é - e que se poderia ser num presente distante e magoado. Tudo por uma crença naquilo que não existe, pelo menos não da maneira que se espera (processo conhecido como ilusão). A espera é a pior coisa que se pode fazer tanto enquanto dura quanto no que resulta: nada se produz e, ao mesmo tempo, tudo se dissolve. Expectativa. Anseio. Paralisia. Desilusão.

23 de julho de 2010

Dormir sozinha

Já havia me esquecido do quanto é ruim dormir sozinha, depois de tanto tempo (mal)acostumada a dormir nos seus braços. Ouvir eu te amo's perdidos no meio da noite, do sono e às vezes até do mau-humor matinal de quem não quer levantar da cama nunca, ganhar - e dar - beijos aleatórios, e até puxar o seu cabelo durante pesadelos... Ainda que dormir apertada na sua concha
me detone as costas, me dê súbita falta de espaço(espaçosa que sou, dormidora de diagonais), ter de dormir desprotegida de você vai acabar com a minha paz. Quero sua presença completa.

22 de julho de 2010

Sobre jarros

Estão todos quebrados, cacos pelo chão.

Que o leite derramado fertilize o solo.

13 de julho de 2010

Lua nova, um pouco minguante

Na estrada mais uma vez, sem sono, fiquei observando a lua enquanto ia caindo a noite devagar por trás do mato. Era um risquinho tão fininho que quase não se via, parecia que ia quebrar. Quase caía do céu, talvez na tentativa de se desprender de vez de um corpo velho e pesado para flutuar eternamente pelo Universo. Se pendurava no nada.

E não era pra ser minguante: já é lua nova desde ontem. É nova, mas ainda tá minguando. E falta uma lasquinha pra se desprender de vez dessa lua que quer logo se perder por aí! Não por aí simplesmente, mas por onde só ela sabe.

É que quando é novo, algumas coisas - sabe-se lá por quê - continuam a minguar! Talvez seja um tempo de adaptação.

Anacolutos

Disseram-me que só eram aceitáveis num Guimarães Rosa ou noutro grande nome da literatura.

Pois bem, eu, Bruna, uma pessoa comum, com todas as peculiaridades que só qualquer um pode ter, valho-me dessas figuras de linguagem o tempo todo. Não por recurso estilístico ou frescurite gramatical (nada contra a gramática em si, pelo contrário...). Quem me conhece sabe que tenho essa mania de querer pensar em tudo, explicar tudo, saber de tudo, mas também sabe o quanto planejo pouco. Minha escrita é impulsiva, cheia de furor mental mesmo quando calma, cheia de paixão mesmo quando apática.

Tudo o que se possa chamar de criação nessa combinação tão variada de letras e sons é também reprodução de vivências. O devir das coisas que se (des)cruzam, emaranhado pulsante, interrompidas para trazer novos sentidos. E é justamente por isso que não posso aceitar essa restrição, se a própria vida é uma sucessão de anacolutos!

6 de julho de 2010

Os adesivos e O Amante

De férias, com todos os livros que comecei esse ano terminados, coisa rara pra quem tem mania de ler 4, 5 ao mesmo tempo e não consegue terminar um, de repente me senti sozinha. Assim, fui procurar em uma coleção que montei no segundo colegial algo que me chamasse atenção. E lá encontrei O Amante, Marguerite Duras. Lembro-me de ter começado e - que novidade! - não ter terminado na época. Claro, 15 ou 16 anos, mais interessada em bandas do que em garotos (a não ser quando confusa e avoada por amores platônicos), não consegui levar à cabo essa leitura. Por incrível que pareça, Virginia Woolf me fez mais sentido naquele momento. Não sei como aconteceu, mas eu entendia e me identificava com aquela escrita e eu não saberia explicar o porquê.

No entanto, que me fez vir até aqui escrever foi a surpresa nostálgica que tive ao reabrir o livro. Nele encontrei, escondidinhas lá no fundo, duas cartelas de adesivo, tiradas de alguma dessas agendas coloridas e simpáticas de menina. Isso, de menina. Foi justamente o que me comoveu. Os adesivos tão coloridos estavam amarelados. Fiquei pensando em mim, seis anos depois; fiquei pensando que talvez os amores (e os não-amores) vividos num futuro mais ou menos próximo desse meu passado, futuro este que também já é passado, fiquei pensando que talvez eles tivessem me transformado numa criatura um pouco mais amarelada. Um pouco anêmica. Anêmica de não saber, anêmica de desespero diante do que hoje posso chamar cinicamente de besteira.

5 de julho de 2010


Território

Não é onde.
É de quem.

E no meu não entra ninguém
Ninguém que não seja convidado
Ninguém que eu não queira

E aos desavisados,
Que fiquem avisados:
Deixo saltar da boca
Meus dentes afiados

Não tenho piedade
Aqui no meu aconchego,
Ah, ele ninguém invade, não.

1 de julho de 2010

Quero viver no meio dos bichos II

Afinal eu sou um deles.
Mas fora do lugar.
Fora de mim.

Mãos

Uma mão não desenha outra mão - ilusão.
Uma mão desenha mãos
que desenham chãos.



Dedicado à donzela que chorou sobre suas mãos,
que teve suas mãos cobiçadas pelo diabo,
amputadas pelo pai,
que chorou, novamente, mas em cima dos tocos
derramou lágrimas sobre os pulsos abertos
que se embrenhou na floresta sem mãos
que ganhou mãos postiças de um rei,
que se embrenhou na floresta com mãos de prata
e um filho no colo
que ganhou, não, não ganhou
que deu à luz a novas mãos
que nasceram sem explicação.
E, assim, pôde tocar todos que amava
com as próprias mãos.
Não

Não cria esse câncer, não, menina.
Não perca esses pensamentos em pressuposições
diabólicas, maquiavélicas, maquinadas
perca-os em cheiros, em sons, em misturas coloridas e p&b
perca-os num devir gostoso, espontâneo por natureza
Não faz isso, não.