15 de novembro de 2010

Jogo sujo

E não é porque é sujo que eu renuncio ao jogo. Renuncio porque é jogo, pura e simplesmente.
Ainda que contra a vontade do coração e o senso da razão, eu me via, de repente, completamente envolvida no seu jogo sujo.
Tentei ser líder, tentei ser fugitiva, tentei ser assassina, mocinha, vilã. Cumpri todos os papéis possíveis. Nenhum me agradou. Não gosto de assumir papéis. Gosto de ser.
Agora chegou o instante decisivo: cansei. Peço arrego e peço arrego para sempre. Renuncio.
Eu não nasci para jogar.
Eu nasci para viver.

14 de novembro de 2010

Era uma vez um castelo

Era uma vez um reino pequeno. Não tinha servos nem corte. Havia muitos animais, animais de muitas cores, muitos tamanhos, animais de todo o tipo. E havia uma bela rainha, que morava sozinha em um castelo bonito, com os seus bichanos. Às vezes, os animais brigavam. Mas não era nada demais, a rainha intercedia e logo faziam as pazes.
Num dia bonito, sem mais nem menos, chegam os macacos e dizem à rainha solitária: os leões mandaram avisar que há um príncipe nos portões e ele lhe pede permissão para entrar. A rainha, que já havia se esquecido dos humanos, acha estranho, mas está bastante curiosa e permite a entrada do moço no reino.
Antes mesmo que o príncipe, de tão grande beleza, chegasse aos pés da torre em que a rainha se resguardava, os dois já não conseguiam desgrudar o olhar. E dias se passaram sem que eles parassem de contemplar um ao outro. Conversaram, riram, ele tocou músicas celestiais de tão belas em seu alaúde. Estavam apaixonados. E sequer entendiam como isso aconteceu: ele que adentrou o reino só por curiosidade e ela, que já estava desacreditada da humanidade e já em paz com seus animais. E eles queriam construir um vida juntos, queriam cuidar daquele reinado. Mas, para isso, o futuro rei precisava chegar até o alto da torre do castelo. Pelo menos foi o que ele achou. Então, ele começa a escalar a torre, golpeando as suas pedras milenares. Quanto mais ele golpeia, mais a torre se abalava. Mas ele não desiste. Quer encontrar o seu amor. A rainha está com medo, ela está falando um monte de coisas, mas ele está tão decidido que não consegue ouvir, os golpes que dá com a sua foice afiada o deixam surdo!
Finalmente, ele chega ao topo e encontra sua amada. A rainha está sentada à sua espera. Mas em volta não existe mais castelo. Só existem ruínas ao redor deles. Agora ele pode ouvi-la. E ela lhe diz: a porta estava aberta.

12 de novembro de 2010

Ciranda de um só

O que importa é se tem alma.

6 de novembro de 2010

Reencontro

E depois de tanto tempo, sem querer, sem motivos ter, um cruzou o caminho do outro:
- Você aqui, de novo, de volta? Não acredito!
- Eu sempre estive aqui! Você é que não estava!
- Senti tanto a sua falta, mas não sabia. Apenas andei errante por aí.
- Pois eu, só agora que o reencontro, também percebo a falta que me fez.
- Por onde andou todo esse tempo?
- Por onde andei? Por aí, não sei. Vi e vivi tanta coisa...

Abraçaram-se. E era um encontrando o outro. E o outro era o eu do um.

Cacos de vidro

Como já disse o poeta, no meio do caminho tinha uma pedra. Mas no meu caminho, eram cacos de vidro espalhados.

Alguns estão com uma pedra nos sapatos. Eu, entretanto, estou descalça. Com um caco de vidro no meu pé. Está sangrando, está doendo. Ele é enorme e está muito enterrado. Preciso tirá-lo. Tomar coragem. Encho-me de aflição.

Eis que puxo o caco. A pele já estava fagocitando-o, puxando-o para si. A dor é maior do que a imaginada. Arde e corta tanto que, sem forças, eu desisto. Mas ele já está quase todo para fora do meu corpo. E minha pele, a mesma que o acolheu, agora começa a expeli-lo.

5 de novembro de 2010

Tiro na boca


Um tiro na boca mata
Mas um tiro na boca
Antes faz a voz se calar
Uma bala na garganta
Tampa a entrada do ar
Sufoca o choro doído
Não deixa falar
Aborta o canto
ainda nem nascido.

Um tiro na boca não dói
O que dói mesmo é quando
tiram a bala, sem anestesia
Sem aviso e sem piedade
Mas tirem essa coisa logo
Já não consigo respirar
Suo e tremo, tenho medo
Meu corpo precisa aguentar
Eu quero aguentar
Mas dói. Dói. Dói.

Ouço o tilintar da bala
que cai numa bandeja de aço
Está suja se sangue
É grande, gorda e pesada
E está fora de mim
Quem atirou?
Não pude ver nada
Foi tão de repente
Também não lembro
quem me salvou.

4 de novembro de 2010

Todo dia

Todo dia é dia duma coisa.
Dia de algum santo.
Dia de alguma profissão.
Se dia é o que não falta,
Coisa é que falta menos ainda.

Mas hoje é dia do inventor.
Hoje é dia de tanta gente então.
Hoje é o dia de qualquer um.
4 de novembro é um dia democrático,
mais do que os outros dias,
Porque qualquer um,
por mais mísera que seja sua vida,
inventou alguma coisa.

Inventou de ser poeta.
Inventou de ser pintor.
Inventou de ser normal.
Inventou um método.
Inventou um instrumento.
Inventou uma fórmula.
Inventou um jeito novo de viver.
Inventou uma cura pra sua dor.
Inventou uma mentira.
Inventou uma paisagem mudando os móveis de lugar.
Inventou uma expressão.
Inventou uma palavra.
Inventou moda.
Inventou história.
Inventou de ser outro.
Inventou de se ser.
Inventou de nascer.
Inventou de morrer.
Inventou uma cor.
Inventou um sabor.
Inventou uma invenção,
inventada ou não.

3 de novembro de 2010

Uma mulher simples

Muito se diz a respeito do homem simples. Digo, o estereótipo "homem simples". Aquele rapaz tranqüilo, sincero, que não precisa se confundir em mil faces para tentar sustentar uma que nem é a que é de fato.
Nunca vi ninguém falar da mesma maneira da "mulher simples". Isso porque elas devem estar escondidas por aí, debaixo de nós mesmas...
Pois hoje eu descobri que sou uma mulher simples. Tenho minhas ambições e meus pequenos luxos, também meus pequenos prazeres sutis. Isso tudo é bom, mas é mais consequência do que necessidade.
Não preciso de muita coisa pra ser feliz. Preciso só do que é básico: amor, respeito e confiança (e por que insistimos em mostrar o que nem é parte da gente?). É como uma coisa em si e o enfeite dessa coisa, como se o enfeite passasse a ter mais valor do que a própria coisa, que vai ficando meio esquecida. Do resto não preciso, apenas me alegra quando é de coração.
Tenho minhas ambições, tenho os meus sonhos (inclusive eu não largo o osso tão fácil...). Sou simples no sentimento, não passo - e nem quero passar - por cima do que tenho de mais essencial. Não quero ser corrupta de mim mesma.
Deve ser por ser uma mulher simples que não me entendem...