13 de janeiro de 2011

Citação I

Não tenho o costume de citar, mas agora não importa.
Disse Clarice:

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Quem mais poderia ter decifrado mistério tão escancarado?

Megera

Acordou chorando.
Cumpriu com as obrigações.
Tirou a mesa do café.
Lavou a louça.
Fez o almoço.
Chamou os irmãos.
Lavou a louça.
Cumpriu com as obrigações.
Chorou.
Gritou com o irmão.
Recusou carinho do pai.
Chamou a mãe de burra.
Gritou com o irmão.
Estressou-se com a irmã.
Gritou com o cachorro.
Estressou-se com o coelho.
Fez cara feia pra tudo.
Chorou.
Quando foi dormir, não aguentou:
Botou o cachorro chorão pra dentro do quarto
Pelo menos alguma boa ação fez
Mas aquilo não iria trazer a redenção.

Jngfrklln


Terá de ser forte, pois a dor não vai passar tão logo.

Avó

Queria ter tido uma avó quando era pequena. Dessas que nos fazem bolo de fubá com erva-doce e nos dizem palavras sábias. Queria ter uma presença assim agora. Queria o seu colo, queria suas verdades doces e engraçadas, queria seus puxões de orelha. Tive uma avó até uns 4 anos, mas não me lembro muito. A outra morreu muitos anos antes de eu nascer - mas da maneira que eu a imagino desde criança, ela não era muito afetuosa. Tenho uma "vó-drasta". Ela é boa pessoa, mas é bastante seca. Às vezes, fico pensando: se eu tivesse tido avó, seria uma pessoa melhor? Seria uma menina mais doce? Seria uma mulher mais forte? Mas é tudo besteira. Bom, deve ser. Eu queria mesmo era colo, que alguém fosse capaz de fazer essa dor parar.

Incompleta

Nada quer preencher esse buraco.
Não quer e nem vai.

Sobre dentes e enchentes

Ando sonhando de novo com dentes podres, caindo, todos, fico pedindo ajuda para as pessoas. Mas não consigo dizer as palavras, pois minha arcada dentária fica dançando na minha boca. E elas não conseguem entender meus sussurros.
E então torno a sonhar com enchentes em lugares desabitados. Dessa vez, nem as nossas bicicletas se safaram. Peço ajuda de novo, ninguém se move. Estou desesperada demais para falar português claro. Ando na enchente, mas não encontro nada na água turva. Depois de desistir, a chuva pára e a enchente abaixa. Lá estão nossas velhas bicicletas, bem sujas de terra.

12 de janeiro de 2011

Quarto morto-vivo

Ácaros. Miniaturas. Paredes. Mobília. Vírus. Chão. Traças. Janela. Fungos. Projeto. Bactérias. Teto. Lagartixa. Quinquilharias. E eu a morrer.

1 de janeiro de 2011

O primeiro telefonema

Não era cedo. Também não era tarde. Estava de pé. O corpo ainda dormia um pouco. E o telefone tocava. Primeiro telefonema do ano. Confusa, atendeu com uma voz indecisa, que era de sono, mas não de muito sono. Não entendeu as primeiras palavras, talvez frases, que vinham do outro lado da linha. Quando viu, já estava respondendo perguntas:
"Oi, aí é 3325...[alguma coisa que não entendeu]?"
"É, isso, não, quer dizer, o quê? 3325 o quê? Aqui é, ai, pera, esqueci. Que número cê falou mesmo?"
"33..", foi interrompida com a brutalidade espontânea de quem pula da cama com um despertador histérico:
"Ah,não, não, aqui é 33251783!"
"Ah, me desculpe, moça! Disquei errado," disse com voz simpática e ao mesmo tempo dolorida de uma mãe com filhos crescidos,"mas que Deus abençoe seu Ano Novo, viu, um feliz 2011."
Agradeceu, retribuindo os votos de felicidade, a gentileza de uma estranha na outra ponta do fio... Foi acordando e foi assim que começou o novo ano.