31 de outubro de 2010

Nós, os românticos

Nós, os românticos, sonhamos. Sonhamos muito.
Não aceitamos ver o mundo com olhos frios.
Nos descabelamos diante de tanta frieza.
Gritamos até explodir o peito.
Queremos mudar o mundo, do nosso jeito idealista.
Aí percebemos que o mundo não tem conserto.
E vemos que nós, individualmente, estamos quebrados também.
E quem vai colar as nossas partes?
Ficamos esperando que alguém o faça.
Enquanto isso, nos distraímos, de fase em fase.
Sempre prontos para afogar alguém com tanto amor.
E o amor consome.
Nos deslumbra para depois nos descabelar, mais uma vez.
E, sozinho, o amor nos explode o peito.
Nos faz sangrar.
E a gente até passa a querer amar menos.
Uns começam fugir e seguem assim até o fim.
Outros chegam no fim sofrendo desde sempre.
São todos românticos, loucos, ávidos.
Perturbados.
Ciumentos.
Violentos.
Amorais.
Imorais.
Apaixonados.
Querendo ficar calmos, sem nunca ter êxito.
Querendo ser algo que não á da nossa natureza, tão humana e tão selvagem.
Querendo não sofrer tanto.
Mas tem como, amando tanto?

Não, isso não é uma poesia.

These days

I've been out walking
I don't do too much talking
These days, these days.
These days I seem to think a lot
About the things that I forgot to do
And all the times I had the chance to.

I've stopped my rambling,
I don't do too much gambling
These days, these days.
These days I seem to think about
How all the changes came about my ways
And I wonder if I'll see another highway.

I had a lover,
I don't think I'll risk another
These days, these days.
And if I seem to be afraid
To live the life that I have made in song
It's just that I've been losing so long.

I've stopped my dreaming,
I won't do too much scheming
These days, these days.
These days I sit on corner stones
And count the time in quarter tones to ten.
Please don't confront me with my failures,
I had not forgotten them.



Gosto tanto da Nico, sinto um misto de pena com admiração extrema...

Amor, música e um pouco de (bastante!) psicologia barata

Quanto mais o tempo passa, mais eu percebo que o amor é a ponte entre a alma e a música. Eles têm a mesma cor, só tem funções diferentes. Um é o objeto, a realização em si. O outro é o veículo. Mas vão se fundindo num só às vezes... Se eu tento separá-los, vejo o quanto se fizeram parecidos na minha história pequena: enquanto o medo sempre assombrou a minha capacidade de amar e a minha capacidade de crescer dentro da música, eu vivi sempre precisando dos dois. O medo que sempre tive de todas as audições, que me enrijeceu os dedos, acelerou os pulsos; e nas aulas, fez minha voz fraquejar diante dos solfejos e estudos de rítmica. Vergonha de cantar. Vergonha de tocar. Vergonha de ser o que mais me satisfaz.

Em 10 anos, fiquei muito rouca de tanto falar para dentro, para baixo e raspando a garganta. Aliás, não só rouca. Fiquei corcunda, com vergonha dos seios grandes, mas isso é uma outra história, apesar de beber na mesma fonte, e terá de ser contada numa outra oportunidade. Tive muito emdo de deixar vibrar dentro e fora da boca a voz que quer sair da alma, mas é tão oprimida. Quanto aos motivos, tenho minhas suspeitas, ainda muito vagas, abstratas...

Há 3 dias, sonhei que estava em mais uma audição de fim de ano, mas dessa vez eu não ia tocar violino. Eu ia cantar! Simplesmente congelei, minha voz não saía. Saí correndo, chorando que nem criança, frustrada mais uma vez pelo meu próprio nervosismo. Eu queria ter cantado, mas sem o peso da insegurança. Eu queria, sobretudo, ter amado sem o peso da insegurança.

Como sempre digo para mim mesma e para quem quer que seja: não adianta chorar sobre o leite derramado. Apenas tento fazer com que a vida continue satisfatoriamente, sem ser empurrada com a barriga. Estou muito feliz hoje por ter conseguido terminar um exercício do Hindemith que, para mim, é muito difícil. Meu estudo inteiro de música tem muitas lacunas. Estou feliz que hoje em dia estou sabendo prenchê-las, ainda que aos poucos. Dizem que a paciência é uma virtude. Para mim sempre foi uma utopia, inquieta que sou. Um dos maiores ensinamentos que tiro das aulas de Yoga é o exercício diário da paciência, não a sofrida nem a conformista, mas o controle dos nossos próprios movimentos, dos mais básicos, simplesmente, com calma. Uma mudança de olhar simplesmente.

30 de outubro de 2010

Céu, Terra e Mozart

Non so piu cosa son, cosa faccio (Le nozze di Figaro)

Non so piu cosa son, cosa faccio,
Or di foco, ora sono di ghiaccio,
Ogni donna cangiar di colore,
Ogni donna mi fa palpitar.
Solo ai nomi d'amor, di diletto,
Mi si turba, mi s'altera il petto,
E a parlare mi sforza d'amore
Un desio ch'io non posso spiegar.
Parlo d'amore vegliando,
Parlo d'amor sognando,
All'acqua, all'ombra, ai monti,
Ai fiori, all'erbe, ai fonti,
All'eco, all'aria, ai venti,
Che il suon de'vani accenti
Portano via con se.
E se non ho chi m'oda,
Parlo d'amor con me!


O desejo pulsante de amar dos anjos é tão inocente! Em Mozart chega a ser bem engraçado, bem italiano (anjo safado!), mais leve do que nos filmes de Wim Wenders - gosto tanto daqueles anjos... Mas, no fim das contas, sempre tão puro!

28 de outubro de 2010

A insustentável leveza do ser

Tudo caminhou para a vida sonhada.
Apesar de tanta tristeza ao redor, eram felizes.
Felizes com a casinha simples no mato, um cãozinho simpático e afetuoso, os amigos mais simples e bondosos.
A morte prematura não teve importância, pois eles conquistaram o que havia de mais importante.

The sound of silence

Hello, darkness, my old friend...

23 de outubro de 2010

Cuspindo os dentes

Antes era só a comida que era indigesta, estômago carrasco. Agora não se pode comer, sem dentes. Todos amolecendo repentinamente, feito os dentes de leite de uma criança.
Mas agora é o permanente, e não o temporário, que se vai. São os dentes de adulto que apodrecem antes da velhice. Um a um, vão ficando moles, cada vez mais bambos. Desesperador. Apesar disso, ainda resta o sarcasmo de brincar com eles com a língua, tentando descobrir o que a raiz esconde. Chama o doutor. O pânico é grande, me faz pensar que talvez precise mais de alguém que me leve até ele do que da própria cura. Começo a cuspir dentes. Como eles são sujos embaixo! Estão cheios de cáries, devem ter sido os doces. E agora seguro meus próprios dentes podres, desesperada para reimplantá-los. Preciso deles. É preciso mastigar antes de digerir.

9 de outubro de 2010

Amarguras do violinista

Bach, ok, a gente tenta.
Mozart, a gente se fode - sempre.
Beethoven, a gente começa a acreditar em reencarnação. Quem sabe na próxima vida...

The Passenger

A gente cresce, muda e tudo mais. Primeiro se assusta quando descobre que você é muito mais conformado, careta etc. do que imaginava quando era aquela adolescente rebelde que botava a cara pra bater pela vida, como se soubesse muita coisa. No entanto, existem coisas que permanecem. Ainda sinto a mesma coisa forte no peito do que com 14 anos ao ouvir a mesma música. A imaginação e os desejos são hoje menores, bem menores, mas o sentimento em mim, bem no fundo, permanece. É algo tão intrínseco ao meu ser que chega a ser atemporal. Algumas coisas são passageiras. Outras nunca mudam.

2 de outubro de 2010

Passeio matinal

Pastel na feira, um movimento tranquilo, a manhã toda ensopada da chuva que caiu durante a noite. O ar tava bom de respirar. Tava bom de andar um pouco, sem pensar na vida. Tocando The Smiths secretamente, bem no fundo dos meus ouvidos, das minhas lembranças. E sempre a mesma parte de There's a light that never goes out, "[...]to die by your side is such a heavenly way to die[...]".
Os planos eram outros, eram pra ele. Mas não pôde ser. E foi como foi, não como tinha de ser, mas como acabou sendo. A vida prega muitas peças.

1 de outubro de 2010

Reticências

E a gente, tonta, sempre acreditando nas suas mentiras deslavadas. Agarradas em verdades duvidosas, tentando enxergar por outro lado. Se a mentira tem um outro lado, com certeza não é a verdade. A covardia já me era o lado conhecido da sua mentira. No lado escuro da sua lua, tá a maldade, maldade de doer nos outros, que te faz parecer um urubu em cima da carne seca. Vangloria-se do seu jeito valentão, de tratar todos bem pra depois mandar se foder, mas é só um menino chorão.
Meus olhos tiveram a incrível capacidade de enxergar tudo ao contrário. Talvez até você tenha se convencido de que era alguém bom, de tanto que eu acreditei nisso.
No fim das contas, entretanto, talvez você não tenha sido bom nem mau. E eu já nem sei mais quem você foi.

Só sei que eu fui. Troco essas reticências doídas por um ponto final.