23 de fevereiro de 2011
Escolhida
Já está escolhida. Não teria melhor opção no mundo, nem haverá até lá, tenho certeza.
Será Ode an die Freude a música do meu enterro. Beethoven é o filho da santíssima trindade. A Nona Sinfonia é o seu fruto mais carnudo.
Ode an die Freude
(Friedrich von Schiller)
O Freunde, nicht diese Tone!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
Und freudenvollere!
Freude schoner Gotterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmliche dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder,
Was die Mode Streng geteilt;
Alle Menschen werden Bruder,
Wo dein sanfter Flugel weilt
Wem der gross e Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund
Freude trinken alle Wesen
An den Bursten der Natur;
Alle Guten, alle Bosen
Folgen ihrer Rosenspur
Kusse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, gepruft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels pracht'gen Plan,
Laufet, Bruder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen
Seid umschlungen, Millionen
Diesen Kuss der ganzen Welt!
Bruder! Uber'm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen
Ihr sturzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schopfer, Welt?
Such' ihn uber'm Sternenzelt!
Uber Sternen muss er wohnen
Eu cantarei.
Será Ode an die Freude a música do meu enterro. Beethoven é o filho da santíssima trindade. A Nona Sinfonia é o seu fruto mais carnudo.
Ode an die Freude
(Friedrich von Schiller)
O Freunde, nicht diese Tone!
Sondern lasst uns angenehmere anstimmen
Und freudenvollere!
Freude schoner Gotterfunken,
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmliche dein Heiligtum!
Deine Zauber binden wieder,
Was die Mode Streng geteilt;
Alle Menschen werden Bruder,
Wo dein sanfter Flugel weilt
Wem der gross e Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein,
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer's nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund
Freude trinken alle Wesen
An den Bursten der Natur;
Alle Guten, alle Bosen
Folgen ihrer Rosenspur
Kusse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, gepruft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!
Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels pracht'gen Plan,
Laufet, Bruder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen
Seid umschlungen, Millionen
Diesen Kuss der ganzen Welt!
Bruder! Uber'm Sternenzelt
Muss ein lieber Vater wohnen
Ihr sturzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schopfer, Welt?
Such' ihn uber'm Sternenzelt!
Uber Sternen muss er wohnen
Eu cantarei.
Acostumada
Vi, pois, que me acostumei com a mentira. Antes eu farejava por ela (mania?) e, muitas vezes, encontrava coisas ruins. E como elas me doíam, como me despertavam vontades de morrer!
Perdi o olfato, também perdi o saco para ficar correndo atrás de hipóteses infernais, que não me deixavam dormir. Estou eu, sem saco, e eis que a mentira aparece de novo na minha frente: dou uma tremidinha, mas contenho a minha raiva, pois também não tenho mais saco para brigas. Percebi que estou acostumada a ser enganada e trapaceada. Acostumei-me à mentira e sei, não, isso não está certo. Dói. Mas eu tento não pensar nisso.
Perdi o olfato, também perdi o saco para ficar correndo atrás de hipóteses infernais, que não me deixavam dormir. Estou eu, sem saco, e eis que a mentira aparece de novo na minha frente: dou uma tremidinha, mas contenho a minha raiva, pois também não tenho mais saco para brigas. Percebi que estou acostumada a ser enganada e trapaceada. Acostumei-me à mentira e sei, não, isso não está certo. Dói. Mas eu tento não pensar nisso.
12 de fevereiro de 2011
Vontade reprimida
Fico querendo ligar, escrever e dizer: estou repentinamente triste (além disso, estou com ciúmes, com medo, deixo de ser alguém sã - fico maluca).
Aí, você vai ficar bravo e dizer: é sempre assim quando eu saio, você sempre está mal, bem quando eu saio (e isso pode virar uma ligação bem cara ou uma vingança bem doída).
Mas você acertou na mosca! Está coberto de razão: é bem quando você sai.
E agora, José (Maria?)? Não vou ligar. Não vou escrever, mandar toscas carinhas tristes via sms. Não vou estragar tudo: seu rolê, nossas contas telefônicas, a minha noite que era pra ser de sono (mas sofre de profunda agonia), o nosso namoro, as nossas vidas, a sua noite. Não posso. Não devo. Não quero (ué, eu não tinha acabado de dizer que queria?)! Vou me segurar, como no tratamento dos dependentes químicos: adiar a consumação do desejo ad infinitum (claro, no mais otimista dos casos).
Amanhã não vou pensar mais nisso.
Mas escrever asneiras por bastante tempo é que nem vomitar quando tá enjoado. Fica bom. Vomita com gosto todo o lixo que comeu. São asneiras de coração.
Só por hoje.
Aí, você vai ficar bravo e dizer: é sempre assim quando eu saio, você sempre está mal, bem quando eu saio (e isso pode virar uma ligação bem cara ou uma vingança bem doída).
Mas você acertou na mosca! Está coberto de razão: é bem quando você sai.
E agora, José (Maria?)? Não vou ligar. Não vou escrever, mandar toscas carinhas tristes via sms. Não vou estragar tudo: seu rolê, nossas contas telefônicas, a minha noite que era pra ser de sono (mas sofre de profunda agonia), o nosso namoro, as nossas vidas, a sua noite. Não posso. Não devo. Não quero (ué, eu não tinha acabado de dizer que queria?)! Vou me segurar, como no tratamento dos dependentes químicos: adiar a consumação do desejo ad infinitum (claro, no mais otimista dos casos).
Amanhã não vou pensar mais nisso.
Mas escrever asneiras por bastante tempo é que nem vomitar quando tá enjoado. Fica bom. Vomita com gosto todo o lixo que comeu. São asneiras de coração.
Só por hoje.
Vô Archimedes e o pessimismo I
Vó Alzira, adepta da seicho-no-ie: "Ai, meu deus do céu, mas tem que se esforçar pra mexer essas pernas. Se você se esforçar todo dia um pouquinho, já já pode até correr na maratona."
Vô Archimedes, com o fêmur quebrado depois de uma bebedeira típica: "Pode deixar que já já eu vou lá pro cemitério apostar corrida com os defuntos."
Vô Archimedes, com o fêmur quebrado depois de uma bebedeira típica: "Pode deixar que já já eu vou lá pro cemitério apostar corrida com os defuntos."
Fingir de morto
Vulgarmente conhecida como "fingir de morto", a tanatose é algo muito sábio por parte dos animais. Pena que não é assim para os humanos.
A única parte em comum é que exige muita competência. Sou meio incompetente, cenicamente falando.
A única parte em comum é que exige muita competência. Sou meio incompetente, cenicamente falando.
No divã
Quero liberdade para escrever.
Mas talvez eu queira liberdade vigiada.
Talvez ainda não seja bem isso: não quero que vejas, quero que compreendas. E isso está fora do meu alcance: me fazer entender.
Ainda quero algo mais fora da realidade: queria que, além de ser compreendida, as coisas pudessem tomar um rumo que me fizesse sentir: sou livre. E me sentindo otimista.
Queria voltar para 1988 e fazer as coisas darem certo.
Eu queria um psicólogo. Mas por enquanto fico com o blog.
Aliás, a penúltima psicóloga ficou com meus papéis e nunca mais os vi. Talvez códigos binários sejam mais seguros, por mais abstrato que pareça.
E, se desse um pane geral e todos os arquivos digitais se perdessem, não ia achar ruim. Bom pra pensar na vida. Papel queimando é assim.
Mas talvez eu queira liberdade vigiada.
Talvez ainda não seja bem isso: não quero que vejas, quero que compreendas. E isso está fora do meu alcance: me fazer entender.
Ainda quero algo mais fora da realidade: queria que, além de ser compreendida, as coisas pudessem tomar um rumo que me fizesse sentir: sou livre. E me sentindo otimista.
Queria voltar para 1988 e fazer as coisas darem certo.
Eu queria um psicólogo. Mas por enquanto fico com o blog.
Aliás, a penúltima psicóloga ficou com meus papéis e nunca mais os vi. Talvez códigos binários sejam mais seguros, por mais abstrato que pareça.
E, se desse um pane geral e todos os arquivos digitais se perdessem, não ia achar ruim. Bom pra pensar na vida. Papel queimando é assim.
Desleixo
Não faço mais questão de escrever bonito - embora me lembre exatamente da boa sensação que tinha ao fazê-lo.
A memória é a grande vilã da história.
A memória é a grande vilã da história.
Sem vida
Meu sangue não é o mais o mesmo.
Menina tinhosa. Nunca ficou doente. Nunca teve frescura, do tipo que comia a cartilagem da carne, os ossos dos frangos, a escama do peixe. Chorona sempre foi - tentou compensar durante a vida o momento do nascimento: nasceu e não chorou. Mas a solidão nunca havia lhe doído. Se virava muito bem sozinha. No meio das pessoas, era um pouco tímida, mas nada demais.
Como a solidão me dói hoje. Sinto falta das pessoas queridas que tomaram outros rumos, distância dolorida para mim. Espero que todas estejam bem. Apegada ao meu namorado como não gostaria de ser (de um jeito que ele nunca via entender, sorte a dele), insegura como nunca tivera sido antes. Tenho medo até quando me aproximo demais da minha única grande amiga: e se nos perdermos mais uma vez? Mas eu gosto de estar com ela. É quase como quando tínhamos 12 anos, quando vivíamos grudadas e não precisávamos de mais ninguém. A diferença é que, antes, eu não tinha medo do futuro, não tinha medo da perda, não conhecia esse tipo de valor.
Hoje sinto dores sempre, dos pés à cabeça. Sempre tem algo que me faz sentir "bichada". Saudades de quando eu não sabia o que era dor de cabeça, dor de estômago, antibiótico, cólica, tpm, indisposição, mágoa, ressentimento, ressacam ciúmes, febre, amigdalite (toncilite!), rinite, alergias - quantas alergias estranhas!, enxaqueca - enxaqueca - enxaqueca (uma enxaqueca daquelas é capaz de mudar a vida das pessoas radicalmente!).
Fico pensando qual foi a fórmula mágica que me levou pro buraco: vegetarianismo? drogas? vida desregrada? excesso de estudo? ciúmes? insegurança? egoísmo? imaturidade? genética?
Eu estou tentando consertar tudo, mas tá difícil. Às vezes, quero ir no psicólogo, aí me lembro que não tenho meu próprio dinheiro para pagar um. E minha mãe não investirá mais uma vez em uma cura para mim - eu largo tudo no meio e odeio isso. Meu sangue não é o mais o mesmo. Agora ele é fraco, lento, gorduroso, triste, sem cor, sem vida.
E isso diz respeito a mim somente.
Eu queria um futuro bom, seja lá o que isso quer dizer.
Menina tinhosa. Nunca ficou doente. Nunca teve frescura, do tipo que comia a cartilagem da carne, os ossos dos frangos, a escama do peixe. Chorona sempre foi - tentou compensar durante a vida o momento do nascimento: nasceu e não chorou. Mas a solidão nunca havia lhe doído. Se virava muito bem sozinha. No meio das pessoas, era um pouco tímida, mas nada demais.
Como a solidão me dói hoje. Sinto falta das pessoas queridas que tomaram outros rumos, distância dolorida para mim. Espero que todas estejam bem. Apegada ao meu namorado como não gostaria de ser (de um jeito que ele nunca via entender, sorte a dele), insegura como nunca tivera sido antes. Tenho medo até quando me aproximo demais da minha única grande amiga: e se nos perdermos mais uma vez? Mas eu gosto de estar com ela. É quase como quando tínhamos 12 anos, quando vivíamos grudadas e não precisávamos de mais ninguém. A diferença é que, antes, eu não tinha medo do futuro, não tinha medo da perda, não conhecia esse tipo de valor.
Hoje sinto dores sempre, dos pés à cabeça. Sempre tem algo que me faz sentir "bichada". Saudades de quando eu não sabia o que era dor de cabeça, dor de estômago, antibiótico, cólica, tpm, indisposição, mágoa, ressentimento, ressacam ciúmes, febre, amigdalite (toncilite!), rinite, alergias - quantas alergias estranhas!, enxaqueca - enxaqueca - enxaqueca (uma enxaqueca daquelas é capaz de mudar a vida das pessoas radicalmente!).
Fico pensando qual foi a fórmula mágica que me levou pro buraco: vegetarianismo? drogas? vida desregrada? excesso de estudo? ciúmes? insegurança? egoísmo? imaturidade? genética?
Eu estou tentando consertar tudo, mas tá difícil. Às vezes, quero ir no psicólogo, aí me lembro que não tenho meu próprio dinheiro para pagar um. E minha mãe não investirá mais uma vez em uma cura para mim - eu largo tudo no meio e odeio isso. Meu sangue não é o mais o mesmo. Agora ele é fraco, lento, gorduroso, triste, sem cor, sem vida.
E isso diz respeito a mim somente.
Eu queria um futuro bom, seja lá o que isso quer dizer.
10 de fevereiro de 2011
Sonho secreto
A mãe, o pai, o irmão, a irmã, o cachorro, o coelho, os tios, as tias, os primos, as primas, as amigas, os amigos, os vizinhos, os colegas, os professores, os estranhos: todos torceram o nariz. Alguns lhe disseram: não, o violino não é ara você. Uns fecharam a janela com veemência: que barulho chato! Outros não conseguiram disfarçar sua frustração, às vezes irritação. Ficaram todos na expectativa, afinal, ela tocava há tantos anos. Mas ninguém nunca entendeu que ela nasceu para o violino.
Queria poder chutar tudo. A faculdade, as pessoas e suas opiniões miseráveis e insensíveis, a minha insegurança, a minha rotina. O seu desejo de tocar era gigante. Seu sonho de um dia poder ensinar música era tão secreto que ela mesma esqueceu.
Quem sabe um dia não faço as malas e vou para Tatuí? Disseram-me que música não era dom, era, sim, trabalho árduo. Devia ter acreditado, antes que eu deixasse me abalar pelas mesquinharias, as minhas e as do mundo... Por enquanto, sinto-me velha e desacreditada.
Queria poder chutar tudo. A faculdade, as pessoas e suas opiniões miseráveis e insensíveis, a minha insegurança, a minha rotina. O seu desejo de tocar era gigante. Seu sonho de um dia poder ensinar música era tão secreto que ela mesma esqueceu.
Quem sabe um dia não faço as malas e vou para Tatuí? Disseram-me que música não era dom, era, sim, trabalho árduo. Devia ter acreditado, antes que eu deixasse me abalar pelas mesquinharias, as minhas e as do mundo... Por enquanto, sinto-me velha e desacreditada.
